sábado, 8 de maio de 2010

RÉEL

Pensée d'aurore opium très fin
Feuillage errant avoine folle
Battue par la brise solaire

Corps décoiffé déshabillé
Dispersé sans inquiétude
Démesuré mais sans orgueil
Brillant d'oubli.

Paul Éluard (Cours Naturel)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

NUDITÉ DE LA VERITÉ

Le désespoir n'a pas d'ailes,
L'amour non plus,
Pas de visage,
Ne parle pas,
Je ne bouge pas,
Je ne les regarde pas,
Je ne leur parle pas

Mais je suis bien aussi vivant que mon amour et que
mon désespoir


Paul Éluard [Mourir de ne pas mourir]
Harmonioso vulto que em mim se dilui

Tu és poema
e és a origem donde ele flui

Intuito de ter. Intuito de amor
não comprendido.

Fica assim amor. Fica assim intuito
Prometido.


Natália Correia ( O livro dos amantes)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

SETE LUAS

Hà noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e hà sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas.

Hà noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
e um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada a baínha de um cometa.

Hà noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desecanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longinqua onda de seu canto

Hà noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo

Natália Correia

terça-feira, 4 de maio de 2010

em meus braços,AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante a falta.


Hoje não a lastimo.

Não hà falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada em meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 2 de maio de 2010

Às vezes em dias de luz perfeita e exacta,
em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
pergunto a mim mesmo devagar
porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas?

Uma flôr acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: Têm cor e forma
e existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe.
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
perante as coisas,
perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro.

NÃO, NÃO É CANSAÇO

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas
do sentimento,
um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo
e também o mundo,
com tudo aquilo que contém,
com tudo o que nele se desdobra
e afinal é a mesma coisa variada em cópias.

Alvaro de Campos.