sábado, 27 de outubro de 2012

DEVO-TE

devo-te tanto como um pássaro
deve o seu voo à lavada
planície do céu.

Devo-te a forma
novíssima de olhar
teu corpo onde às vezes
desce o pudor o silencio
de uma palpebra mais nada...

Devo-te o ritmo
de peixe na palavra,
a genesíaca, doce
violencia dos sentidos;
esta tinta de sol
sobre o papel de silencio
das coisas - estes versos
doces, curtos, de abelhas
transportando o polén
levíssimo do dia;
estas formigas na sombra
da propria pressa  entrando
todas em fila no tempo,
uma pergunta frágil
nas antenas, um recado invisível, o peso
que as deixa ser e esquece;
e a tua voz que compunha
uma casa, uma rosa
a toda a volta - ó meu amor vieste
rasgar um sol das minhas mãos!


Vitor Matos e Sá (O silencio e o tempo)

sábado, 20 de outubro de 2012

Não sei...

Não sei se é amor que tens, ou amor que finjes,
O que me dás. Dás-mo, tanto me basta.
Já que não sou por tempo,
seja em jovem por erro.
Pouco os deuses me dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falsa que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro os olhos: é bastante
Que mais quero?

Ricardo Reis *in odes*

domingo, 7 de outubro de 2012

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

L'Angoisse

T.J.
Nature, rien de toi ne m'émeut, ni les champs
Nourriciers, ni l'écho vermeil des pastorales
Siciliennes, ni les pompes aurorales,
Ni la,  solennité dolente des couchants.

Je ris de l'Art, je ris de l'Homme aussi, des chants,
Des vers, des temples grecs et des tours en spirales
Qu'étirent dans le ciel vide les cathédrales,
Et je vois du même oeil les bons et les méchants.

Je ne crois pas en Dieu, j'abjure et je renie
Toute pensée, et quant à la vieille ironie,
L'Amour, je voudrais bien qu'on ne m'en parlât plus.

Lasse de vivre, ayant peur de mourir, pareille
Au brick perdu jouet du flux et du reflux,
Mon âme pour d'affreux naufrages appareille.

Poèmes Saturniens - Paul Verlaine

Ouvindo...

CHANSON D'AUTOMNE

T.J.
Les sanglots longs
Des violons
De L'Automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure;
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.


Poèmes Saturniens - Paul Verlaine