sábado, 6 de julho de 2013

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Não, Não é Cansaço

T.J.
 

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas
Do sentimento
Um feriado passado no abismo.

Não, Cansaço não é...
É um estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra.
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstrata
Da vida concreta-
Qualquer coisa com um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angustia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola de outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.

Confesso: é cansaço!...

Alvaro de Campos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Identidade

T.J.
 
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
 
Sou grão de rocha
sou o vento que a desgasta
 
Sou pólen sem insecto
Sou areia sustentando
o sexo das arvores
 
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
 
No mundo que combato morro
No mundo por que luto nasço
 
 
Mia Couto (Raiz de Orvalho e Outros Poemas) 
 


quarta-feira, 19 de junho de 2013

T.J.
 
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as silabas te queimassem os lábios
Sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que conheça
 
Porque eu cresço para ti
Sou eu dentro de ti
que bebe a ultima gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno
 
Mia Couto

quarta-feira, 5 de junho de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

Ouvindo...


T.J.
 
Foi para ti
que desfolhei a chuva
Para ti soltei o perfume da terra
Toquei no nada
e para ti foi tudo.
 
Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre.
 
Para ti dei voz
´as minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nos
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e nao dormíamos.
Eu  descia em teu peito
para  me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um so
amando de uma so vida
 
Mia Couto (Raiz de Orvalho e Outros Poemas)