segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

LADAINHA DOS PÓSTOMOS NATAIS

T.J.
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguem meu conhecido
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja verso deste livro
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o NADA a sós comigo
 
Há-de vir um  Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
 
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o NADA retome a cor do Infinito.
 
David Mourão Ferreira

domingo, 23 de dezembro de 2012

Wish you...


Merry Christmas
Happy 2013

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

SONETO DA SEPARAÇÃO

T.J.´
 
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
 
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a ultima chama
E da  paixão fez-se o pressentimento
E do momento imovel fez-se o drama.
 
De repente, não mais que de repente
fez-se de triste o que fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
 
Fez-se do amigo próximo distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
 
 
Vinícios de Moraes




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A DANÇA -Pablo NERUDA

T.J.
Não te amo como se fosse a rosa de sal, topázio
ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
secretamente, entre a sombra e a alma:
Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim directamente  sem  problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar  de outra maneira,
senão assim deste modo que não sou nem és,
tão pertro que tua mão sobre o meu peito é minha,
tão perto que se fecham  teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu.
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
Hangares crueis que se dependiam
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era de outros e de ninguem,
Até qua a tua beleza e tua pobreza
 de dádivas encheram o outono.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Não Quero mais Que o Dado

T.J.

Do que quero, renego. se o querê-lo
me pesa na vontade. Nada que haja
vale que lhe concedamos
uma atenção que doa.

Meu balde exponho à chuva, por ter àgua
Minha vontade, assim, ao mundo exponho,
recebo o que me é dado,
e o que falta não quero.

O que me é dado quero
depois de dado, grato.
Nem quero mais que o dado
ou que o tido desejo.

Ricardo Reis (Odes)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

QUEDA

T.J.

E eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir... Mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência

Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,
volve-se logo falso... ao longe o arremesso...
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro à mingua do excesso.

Alteio-me na côr à força de quebranto,
Estendo os braços de alma - e nela me espanto venço!...
Peneiro-me na sombra - em nada me condenso...
Agonias de luz eu vibro ainda entanto

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
- Vencer às vezes é o mesmo que tombar -
E como inda sou luz, um grande retrocesso,
em raivas ideais ascendo até ao fim:
Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso

    .............

Tombei...
 
  E fico só esmagado sobre mim!...


Mário de Sá Carneiro (Dispersão)