Comunguei um dia de tal intimidade que cada palavra de um era recolhida pelo outro sem deturpação. Acontecia o mesmo com cada silêncio. Não se tratava daquela fusão que no inicio os amantes conhecem e que é um estado irreal e destruidor. Havia na amplitude do laço que se criara, algo de musical e estávamos simultaneamente juntos e separados como as asas diáfanas de uma libélula. Por ter conhecido esta plenitude, sei que o amor nada tem a ver com o sentimentalismo que perpassa nas canções, nem tão pouco com a sexualidade de que o mundo faz a principal mercadoria - a que permite vender todas as outras.
O amor é o milagre de sermos ouvidos, mesmo estando em silêncio, e de ouvirmos em troca com igual acuidade a vida em estado puro, tão leve como o ar que sustém as asas das libélulas e se alegra com os seus bailados.
CHRISTIAN BOBIN (n.1951)
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
AS PEDRAS...
É puro engano pensar que as pedras são seres mortos
porque estão inertes.
Certo é que só o silêncio mais profundo é capaz de
falar com elas,
mas se;
-As pedras enfretam o mar;
-As pedras sustentam a casa;
-As pedras posam nuas no alto das montanhas a contemplar horizontes;
-As pedras banham-se e brincam na àguas dos rios.
estarão mortas?
porque estão inertes.
Certo é que só o silêncio mais profundo é capaz de
falar com elas,
mas se;
-As pedras enfretam o mar;
-As pedras sustentam a casa;
-As pedras posam nuas no alto das montanhas a contemplar horizontes;
-As pedras banham-se e brincam na àguas dos rios.
estarão mortas?
domingo, 10 de outubro de 2010
LA MORT DES AMANTS
Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.
Usant à l'envie leurs chaleurs dernières,
Nous deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui refléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits,ces miroirs jumeaux.
Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot,tout chargé d'adieux;
Et plus tard un Ange entr'ouvrant des portes,
Viendra ranimer fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal)
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.
Usant à l'envie leurs chaleurs dernières,
Nous deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui refléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits,ces miroirs jumeaux.
Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot,tout chargé d'adieux;
Et plus tard un Ange entr'ouvrant des portes,
Viendra ranimer fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.
Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal)
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
terça-feira, 5 de outubro de 2010
CHUVA
Hoje a chuva cai...
Fina, silenciosa, macia.
Cortina transparente,
cinza escuro.
Ondulante e fria
tão fria como a vida sem sentido,
tão leve como o sonho tão distante...
Embebe a terra,
embriaga o chão,
dá vida às flores,
mas, molha-me o rosto cansado,
mostra-me tristeza e saudade.
Enche-me de angustia o coração.
Teresa
Fina, silenciosa, macia.
Cortina transparente,
cinza escuro.
Ondulante e fria
tão fria como a vida sem sentido,
tão leve como o sonho tão distante...
Embebe a terra,
embriaga o chão,
dá vida às flores,
mas, molha-me o rosto cansado,
mostra-me tristeza e saudade.
Enche-me de angustia o coração.
Teresa
domingo, 3 de outubro de 2010
LES PIERRES
Claires traversent les airs,les
blancheclaires, porteuses
de lumière.
Elles ne veulent
pas toucher le bas, l'abîme,
leur but. Elles
montent,
comme les humbles
églantines, elles s'ouvrent,
elles planent,
vers toi, ma silencieuse,
ma vraie-:
Je te vois, tu les cueilles avec mes
mains nouvelles, mes
mains-de-tout-le-monde, tu les mets
dans l'encore-une-fois clarté, que personne
n'a besoin de pleurer ni nommer.
Paul Celan (La Rose de Personne)
blancheclaires, porteuses
de lumière.
Elles ne veulent
pas toucher le bas, l'abîme,
leur but. Elles
montent,
comme les humbles
églantines, elles s'ouvrent,
elles planent,
vers toi, ma silencieuse,
ma vraie-:
Je te vois, tu les cueilles avec mes
mains nouvelles, mes
mains-de-tout-le-monde, tu les mets
dans l'encore-une-fois clarté, que personne
n'a besoin de pleurer ni nommer.
Paul Celan (La Rose de Personne)
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