sexta-feira, 29 de março de 2013

Amor Fortuito

 
T.J.
 
Seduziu. E levou
naquele olhar
tudo o que neste coube
sem ter sido gozado.
 
Que súbita presença
de casual encontro
com gestos de silencio
e quietude de assomo.
 
E depois? Um tumulto,
nada mais assumido:
o tremor esvaido
que não teve percurso.
 
 
António Salvado (Essa Estória)

quinta-feira, 28 de março de 2013

Aperto

 
 
T.J.
 

A tua mão estendida,
gesto impensado de ternura súbita
foi a primeira estrela no crepúsculo
de mais um dia igual a outros idos,
como leito de rio abandonado
enchendo-se a fluir,
como folhas do chão
à árvore tornadas,
como neve sedosa a encobrir
sulcos de pranto.
 
Vagabundo cedi: terei perdido
o dom da sedução que o sonho entrega
quando um  meandro após outro meandro
talham difícil
transformar em certeza uma promessa.
 
Acolhendo, velada, nos meus dedos
a tremerem
a tua mão estendida
agradecido  aperto.
 
 
António Salvado (Essa  Estória)

Incautamente

T.J
 
 És como a onda limpa que realça
a beleza recôndita da água
o vento brando solto da montanha
que me refresca a febre dos instantes,
a luz das nuvens pelo céu dispersas
que  desce até às marcas das pegadas
deixadas no caminho que atravesso
incautamente sem pensar em nada.
 
Continuo a reter-te no meu peito,
a debruçar em ti o meu poema,
e por entre neblinas e poeiras
o perfil do teu rosto reacende.
 
 
António Salvado (Essa Estória)


sexta-feira, 22 de março de 2013

Ouvindo...


Il Pleure dans mon Coeur


Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville
Quelle est cette languer
Qui pénètre mon coeur?

Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie!

Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeur.
Quoi! Nulle trahison?
Ce deuil est sans raison.

C'est bien la pire peine
De ne savoir porquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!

Paul Verlaine

terça-feira, 19 de março de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

Tortura


T.J.
Tirar dentro do peito a emoção,
A  lúcida verdade, o sentimento!
-E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
 
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
-E ser depois de vir do coração,
O pó, o nada,  o sonho dum momento...
 
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros com que minto!
 
Quem me dera encontar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho  e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
 
 
Florbela Espanca (Livro das Mágoas)

quarta-feira, 13 de março de 2013

segunda-feira, 11 de março de 2013

Soneto de aniversário

Passam-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envelhecida
Diminuamos bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que  vê envelhecer e não  envelhece.

Vinícios de Moraes