terça-feira, 17 de janeiro de 2012

POEMA PATÉTICO

T.J.


Que barulho é esse na escada?

É o amor que está acabando,

é o homem que fechou a porta

e se enforcou na cortina.

Que barulho é esse na escada?

É Guiomar que tapou os olhos

e se assoou com estrondo.

É a lua imóvel sobre os pratos

e os metais que brilham na copa.

Que barulho é esse na escada?

É a torneira pingando agua,

é o lamento imperceptível

de alguem que perdeu no jogo

enquanto a banda de musica

vai baixando, baixando o tom.

Que barulho é esse na escada?

É a virgem com um trombone,

a criança com um tambor,

o bispo com uma campaínha

e alguem abafando o rumor

que salta do meu coração.


Carlos Drummond de Andrade

sábado, 7 de janeiro de 2012

LUZ DE ONTEM

T.J.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro

no céu passado, a véspera extinta. Meu rosto

vai tão baixo, que antes nos céus ia exposto!

Procuro, não sei o que procuro. Procuro

auroras idas, que jorravam inflamadas

fontes - hoje com aguas presas derrotadas.

Procuro, não sei o que procuro. Procuro

a grande hora que em mim restou sem figura

como em um cântaro morto um fim de abertura.

Procuro, não sei o que procuro, sob estrelas [de ontem,

sob as que passaram, procuro

a luz apagada que ainda enalteço.


Lucian Blaga.