domingo, 31 de julho de 2011

DEVIAS ESTAR AQUI...



T.J.


Devias estar aqui rente aos meus lábios

para dividir contigo esta amargura

dos meus dias partidos um a um.


-Eu vi a terra limpa no teu rosto,

só no teu rosto e nunca em mais nenhum



Eugénio de Andrade.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

QUÁSI

Um pouco mais de sol-eu era brasa,
Um pouco mais de azul-eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém.

Assombro ou paz? Em vão...Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho-ó dor-quasi vivido...

Quasi o amor, quasi o tiunfo e a chama,
Quasi o principio e o fim-quasi a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo...e tudo errou...
-Ai a dor de ser-quasi,dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei-me em mim,
Asas que se enlaçou mas não voou...

Momentos d'alma que desbaratei...
Templos onde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar
Ansias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio encontro só indicios...
Ogivas para o sol-vejo-as cerradas;
E mãos de heroi, sem fé acobardadas,
Puseram grades sobre os precipicios...

Num impeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi.

................
................
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul- eu era além
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse aquem.


Mário de Sá Carneiro in «Dispersão»

domingo, 17 de julho de 2011

DESDE A AURORA

Como um sol de polpa escura
para levar à boca,
eis as mãos:
procuram-te desde o chão,

entre os veios do sono
e da memória procuram-te:
à vertigem do ar
abrem as portas:

Vai entrar o vento ou o violento
aroma de uma candeia,
e subitamente a ferida
recomeça a sangrar:

é tempo de colher: a noite
iluminou-se bago a bago: vai surgir
para beber de um trago
como um grito contra o muro

Sou eu -a terra- que te procuro.


Eugénio de Andrade.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

OUVINDO...

.../...

Pousa um momento,
Um só momento em mim
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim nesse momento!
No olhar a alma tambem
Olhando-me, e eu a vêr
Tudo quanto de ti o teu olhar tem.
A vêr até esquecer
Que tu és tu tambem.
Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu, tudo o que sou.
Ficou o momento
E o momento parou.


Fernando Pessoa.

domingo, 3 de julho de 2011

SOLIDÃO



T.J.


Hà momentos infelizes em que a solidão

e o silêncio se tornam meios de liberdade....


Paul Veléry.