quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

SOMBRA

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.

Sombra de mim que recebe luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.

Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e que não me persigo,
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim.

Almada Negreiros.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

AS MINHAS MÃOS

São mãos que afagam.
Mãos que tremem, mãos que fogem.
Mãos que se escondem.
Mãos que procuram nos bolsos algures , coragem.
Mãos que não querem dizer adeus.

Teresa Jorge

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

AUTO RETRATO

Nunca me arrependi daquilo que fiz.
Mas arrependo-me muito daquilo
que não fiz, por medo, por orgulho
ou por falta de coragem....

Teresa Jorge

WE WILL MEET AGAIN...

sábado, 18 de dezembro de 2010

MIS LIBROS

Mis libros(que no saben que yo existo)
son tan parte de mi como este rostro
de sienes grises y de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mana côncava.

No sin lógica amargura
pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.

Mejor asi. Las voces de los muertos
me dirán para siempre


J.L.BORGES

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

FALL...

EL REMORDIMIENTO

He cometido el peor dos los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido feliz.
Que los glaciares del olvido
me arrastrem y me pierdan, despiadados.
Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida
no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfías
del arte, que entreteje naderías.
Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
la sombra de haber sido un desdichado.


J.Luis Borges.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

NÃO SEI QUEM SOU,QUE ALMA TENHO

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe
(se é esse outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpétuamente me ponta
traições de alma a um caracter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me multiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma
e está em todas.
Como a panteísta se sente arvore (?) e até flor,
eu sinto-me varios seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus, sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa.

YO

Yo la calavera, el corazón secreto,
los caminos de sangre que no veo,
los túneles del sueño, ese Proteo,
las visceras, la nuca, el esqueleto.

Soy esas cosas, increiblemente
Soy también la memoria de una espada
Y la de un solitário poniente
que se dispersa en oro,en sombra, en nada.

Soy el que ve las proas desde el puerto;
Soy los contados libros,los contados
grabados por el tiempo fatigados;
Soy el que envidia a los que ya se han muerto.

Más raro es ser el hombre que entrelaza
palabras en un quarto de una casa.

J.Luis Borges

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

EU,EU MESMO...

Eu, eu mesmo...
Eu, cheio de todos os cansaços
quantos o mundo pode dar.-

Eu...
Afinal tudo, porque tudo é eu,
e até as estrelas, ao que parece,
me sairam da algibeira para deslumbrar crianças...
Que crianças não sei...

Eu...
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei...
Eu...
Tive um passado? Sem dúvida...
Tenho um presente? Sem dúvida...
Terei um futuro? Sem dúvida...
A vida que pare daqui a pouco...
Mas eu, eu...
Eu sou eu,
Eu fico eu,
Eu...

Alvaro de Campos.

whithout....

sábado, 4 de dezembro de 2010

MÃOS

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender
Sophia de Mello Breyner.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

OUVINDO...

LE MIROIR D'UN MOMENT

Il dissipe le jour,
Il montre aux hommes les images déliées de l'apparence,
Il enlève aux hommes la possibilité de se distraire.
Il est dur comme la pierre,
La pierre informe,
La pierre du mouvement et de la vue,
Et son éclat est tel que toutes les armures,
tous les masques en sont faussés.
Ce que la main a pris dédaigne même de prendre
la forme de la main,
Ce qui a été compris n'existe plus,
L'oiseau s'est confondu avec le vent,
Le ciel avec sa vérité,
L'homme avec sa réalité.

Paul Éluard (Capitale de la Douleur)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

NOBODY

SOU

Sou
Ninguém.
Talvez só a lua e eu
Sejamos
O que nesta hora somos,
Escombros
Contemplando-nos mutuamente.



Teresa.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

BEAU SOIR

SEM TI

E de subito desaba O SILÊNCIO.
É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a musica das tuas.


Eugénio de Andrade

SMILE

Sorri sempre para não dares aos outros a alegria de te ver chorar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O SORRISO

Creio aque foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz lá dentro,
apetecia entrar nele,
tirar a roupa,
ficar nu dentro daquele sorriso
correr, navegar, morrer
naquele sorriso.


Eugénio de Andrade.

OUVINDO.... (REMEMBER ME...)

domingo, 14 de novembro de 2010

......... THE CLOWNS.

SE

Se não existisse poesia.
Se em nossas vidas não existisse o silêncio
para deixar voar a alma nua
através da órbita do pensamento,
seriamos como esqueletos de mariposas
gastando a vida num casulo cego.

Se não pudessemos derramar
o licor sedento da nostalgia,
no cálice de cristal do sentimento,
seriamos crianças sem peito
onde saciar a fome.

Se se calasse o suspiro
e o guardássemos em gavetas de ideias moribundas,
Melhor fora não termos nascido.

Se as palavras não vagueassem
pelas veredas do alfabeto, entre brumas
na estrada alucinada das ideias,
não encontraraiamos a cordenada perfeita
para chegar ao cume do sentimento
que nos deixa guardar em lembranças nostálgicas
a dor das horas passadas.

Se não fosse porque existem almas gêmeas,
que compartilham em comunhão
a tertúlia da vida,
seria impossível empeender a viagem,
imaginária,
num barco de papel até ao oceano infinito
onde se eternizam momentos.

Teresa

sábado, 13 de novembro de 2010

I WISH...

AI QUEM ME DERA

Ai, quem me dera terminasse a espera
Retornasse o canto simples e sem fim
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim.
Ai, quem me dera ver morrer a fera
Ver nascer o anjo, ver brotar a flor.
Ai, quem me dera uma manhã feliz.
Ai, quem me dera uma estação de amor.
Ah, se as pessoas se tornassem boas
e cantassem loas e tivessem paz
e pelas ruas se abraçassem nuas
e duas a duas fossem ser casais.
Ai, quem me dera ao som de madrigais
ver todo o mundo para sempre afim
e a liberdade nunca ser demais
e não haver mais solidão ruim.
Ai, quem me dera ouvir o nunca-mais
dizer que a vida vai ser assim.
E, finda a espera, ouvir na primavera
alguem chamar por mim.

Vinicius de Moraes

MEMÓRIA

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Carlos Drummond de Andrade (Claro Enigma)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

OUVINDO...

LINGUAGEM CORPORAL

Expressiva -A liguagem sai do significante/significado e expressa-se em movimento
Emotiva -O corpo chora e ri em alternancias de emoções-sente, somatiza, emociona-se
Sensual -O corpo goza. Não existe orgasmo fora do corpo.
Comunicativa-O corpo comunica: fala, grita e agita-se
Dramática -O rito é a dramatização do mito. O santo e o profano dramatizam.
Interactiva -Na era da globalização do desconstrutivismo o corpo interage, expressa-se no
conjunto.


O corpo fala e muito, coisas que não queremos dizer ou sublimamos


Teresa

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

SONHOS

Afoguei-me nas àguas onde nasceram os meus sonhos.
Embalei-os numa teia frágil, feita de intenções,
adornada com a mais doce esperança
mas bordada com fios de incertezas.
Por isso,
Não passaram de crianças
foram esfacelados pela vida
amarrotados na sua aspereza e
morreram pouco a pouco.
Amortalhei-os a todos e a mortalha que os levou,
foi a mesma com que os embalei.
Eu voltei a afogar-me, mas agora já não sonho.


Teresa.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

QUEM SOU EU E O QUE SOU

Eu sou tudo...

Sou os livros que li, as viagens que fiz,
os amigos que conquistei.
Sou os momentos que tive e decerto os que irei ter.
Os amores que tenho e aqueles que vi morrer.
Sou os sonhos irrealizados e os objectivos alcançados.
O meu interior, mas tambem o meu exterior.
Sou a saudade do que fui e a fé do que serei.
Sou a dona dos meus actos sejam eles bons ou maus.
O perfeito e o imperfeito,
a igualdade e o contraste.
Faço parte da complexidade deste mundo.
Sou pois o que eu sei de mim, mas ninguem vê.

Teresa.

domingo, 7 de novembro de 2010

DESPEDIDA

Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será una magia entre nosotros.

No habrá sino recuerdos.
Oh tardes merecidas por la pena
noches esperanzadas de mirarte
campos de mi camino, firmamento
que estoy viendo y perdiendo...
Definitiva como un marmól!
entristecerá tu ausencia otras tardes.

Jorge Luis Borges.

SONHANDO ....

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

BODY AND SOUL...

AO LONGE (ao luar)

Ao longe, ao luar,
no rio uma vela
serena a passar.
Que é que me revela?
Não sei, mas meu ser
tornou-se estranho,
e eu sonho sem vêr
os sonhos que tenho.

Que angustia me abraça?
Que amor não se explica?
É a vela que passa
na noite que fica.


Fernando Pessoa

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

IMORTAIS

LA NOCHE (en la isla)

Toda la noche he dormido contigo
junto al mar, en la isla.
Selvage y dulce eras entre el placer y el sueño,
entre el fuego y el agua.

Tal vez muy tarde
nuestros sueños se unieron
en lo alto o en el fondo,
arriba como ramas que un mismo viento mueve,
abajo como rojas raices que se tocan.

Tal vez tu sueño
se separó del mio
y por el mar oscuro
me buscaba como antes
cuando aún no existias
cuando sin divisarte
navegué por tu lado,
y tus ojos buscaban
lo que ahora
-pan, vino, amor y cólera-
te doy a manos llenas
porque tu eres la copa
que esperaba los dones de mi vida

He dormido contigo
y al despertar tu boca
salida de tu sueño
me dio el sabor de tierra,
de agua marina, de algas
del fondo de tu vida,
y recibi tu beso
mojado por la aurora
como si me llegara
del mar que nos rodea

Pablo Neruda.

OUVINDO...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

QUEM SOU EU

Quem sou eu?
Pequena coisa.
Sigo singelo caminho
Não dou ao mundo grandeza,
Não peço nem me dão atenção,
Não mostro nem talento, nem beleza.
O que sou eu então?

Sou,
Passaro sem canto,
só mais um na natureza.
Fonte que mata a sede, no entanto
Da sua agua, ninguem fala da pureza.
Sou,
Praia,sou campo, sou vida.
Sou,
estranha coisa perdida
num mundo de faz de conta,
onde o que conta,
são adulações, prazeres,
bons nomes e maus amores
aparências e favores.


Teresa

CAMINANTE NO HAY CAMINO

Caminante,son tus huellas
el camino, y nada más;
Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sinon estelas en la mar


António Machado

domingo, 31 de outubro de 2010

ESPERANÇA

Transformas revestes, e nenhuma
me satisfaz!

Vens ás vezes no amor, e quase te acredito.
Mas todo o amor é um grito.
desesperado
que apenas ouve o eco...
Peco
por absurdo humano:
Quero não sei que cálice profano
cheio de um vinho herético e sagrado.

Miguel Torga (Penas do Purgatório)

OUVINDO E OUVINDO E OUVINDO...

sábado, 30 de outubro de 2010

PERFIL

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
fica varejado.
Já nascido em pecado,
todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
à minha condição,
que quando por excepção
os não pratico
é que me mortifico.
Alma perdida
antes de se perder,
sou uma fome incontida
de viver.
E o que redime a vida
é ela não caber
em nenhuma medida.

Miguel Torga.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

PUDERA

Pudera eu deixar escorrer no rosto
a lágrima que já não consigo chorar,
e molhar a terra estéril
onde narcisos voltassem a florir.
Sentir na alma o aconchego do sol posto,
Deixar que o brilho da lua ilunine
o caminho que já não consigo enxergar.
Pudera eu sentir-mr nuvem.
Flutuar pela imensidão, no eter,
até ao sonho!
Pudera eu sentir o amor,
sentir a paz, voar.

Pudera, Pudera...

Teresa

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

LAS HORAS

El fiero deslizar de la penumbra
ancentúa los rasgos inernales
de los besos que nunca sucedieron.

Donde van esos besos que son agua
marchita por el ulular del ángel?
Donderezan los árboles hundidos?

Si se apaga el poder de la memoria
a los pies del cordero devastado
dónde sollozaran las madreselvas?

Recuerdos de la soledad, la angustia,
en un último valle de tinieblas
escindidas del paso de las horas.

Catalejos insomnes las estudian
con una servileta en el espejo.

Ansian conquistar la madrugada

OUVINDO AS HORAS...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dick Hyman and Billy Taylor

LA COURBE DE TES YEUX

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse et de douceur,
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
et si je ne sais plus tout ce que jái vécu,
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.

Feuilles de jour et mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel et de la mer,
Chasseurs des bruits et sources des couleurs.

Parfums éclos d'une couvée d'aurores
qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'inocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.

Paul Eluard

sábado, 23 de outubro de 2010

ROTINA

Passamos pelas coisas sem as vêr,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguem chama por nós não respondemos,
se alguem nos pede amor não estremecemos,
como os frutos de sombra sem sabor
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

AS PALAVRAS

São como cristal
as palavras.
Algumas, um punhal
um incendio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memórias.
Inseguras navegam.

Barcos ou beijos,
as aguas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.

Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
crueis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Quem as escuta? Quem
as recolhe assim

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ESCAVAÇÃO

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar.

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
-Onde existo que não existo em mim?

...................
...................

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que principio ou fim.

Mário de Sá Carneiro (Dispersão)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

SONHO. NÃO SEI QUEM SOU

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me.Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.


Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero, nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém

Fernando Pessoa (O Cancioneiro)

domingo, 17 de outubro de 2010

POEMA XVIII

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu corpo se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

AS PALAVRAS QUE TE ENVIO SÃO INTERDITAS

As palavras que te envio são interditas
até,meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Doi-me esta àgua,este ar que se respira,
doi-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente,
nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

sábado, 16 de outubro de 2010

A boca
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila.

A boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

Espera o ardor do vento
para ser ave
e cantar


Eugénio de Andrade
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade
aguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura até doer.

É urgente o amor, é urgente
permanecer

Eugénio de Andrade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Morreu a Diva

PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um passaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh,a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da àgua entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou musica.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a àgua,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde tambem quero que chegue
o meu canto e a manhã de Maio.

Um passaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que hà diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flôr ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - PROCURO-TE

Eugénio de Andrade (As Palavras Interditas)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Comunguei um dia de tal intimidade que cada palavra de um era recolhida pelo outro sem deturpação. Acontecia o mesmo com cada silêncio. Não se tratava daquela fusão que no inicio os amantes conhecem e que é um estado irreal e destruidor. Havia na amplitude do laço que se criara, algo de musical e estávamos simultaneamente juntos e separados como as asas diáfanas de uma libélula. Por ter conhecido esta plenitude, sei que o amor nada tem a ver com o sentimentalismo que perpassa nas canções, nem tão pouco com a sexualidade de que o mundo faz a principal mercadoria - a que permite vender todas as outras.

O amor é o milagre de sermos ouvidos, mesmo estando em silêncio, e de ouvirmos em troca com igual acuidade a vida em estado puro, tão leve como o ar que sustém as asas das libélulas e se alegra com os seus bailados.

CHRISTIAN BOBIN (n.1951)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

AS PEDRAS...

É puro engano pensar que as pedras são seres mortos
porque estão inertes.

Certo é que só o silêncio mais profundo é capaz de
falar com elas,

mas se;

-As pedras enfretam o mar;
-As pedras sustentam a casa;
-As pedras posam nuas no alto das montanhas a contemplar horizontes;
-As pedras banham-se e brincam na àguas dos rios.

estarão mortas?

domingo, 10 de outubro de 2010

AMANTES Enrico Pieranunzi

LA MORT DES AMANTS

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envie leurs chaleurs dernières,
Nous deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui refléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits,ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot,tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange entr'ouvrant des portes,
Viendra ranimer fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

Charles Baudelaire (Les Fleurs du Mal)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

CHUVA

Hoje a chuva cai...

Fina, silenciosa, macia.
Cortina transparente,
cinza escuro.
Ondulante e fria
tão fria como a vida sem sentido,
tão leve como o sonho tão distante...

Embebe a terra,
embriaga o chão,
dá vida às flores,
mas, molha-me o rosto cansado,
mostra-me tristeza e saudade.
Enche-me de angustia o coração.


Teresa

domingo, 3 de outubro de 2010

LES PIERRES

Claires traversent les airs,les
blancheclaires, porteuses
de lumière.

Elles ne veulent
pas toucher le bas, l'abîme,
leur but. Elles
montent,
comme les humbles
églantines, elles s'ouvrent,
elles planent,
vers toi, ma silencieuse,
ma vraie-:

Je te vois, tu les cueilles avec mes
mains nouvelles, mes
mains-de-tout-le-monde, tu les mets
dans l'encore-une-fois clarté, que personne
n'a besoin de pleurer ni nommer.

Paul Celan (La Rose de Personne)

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EL POZO

A veces te hundes caes
en tu agujero de silencio,
en tu abismo de cólera orgullosa,
y apenas puedes
volver, aún con jirones
do lo que hallaste
en la profundidad de tu existencia.

Amor mio, qué encuentras
en tu pozo cerrado?
Algas, ciénegas, rocas?
Qué ves con tus ojos ciegos,
rencorosa y herida?

Mi vida, no hallarás
en el pozo en que caes
lo que yo guardo para ti en la altura:
un ramo de jasmines con rócio,
un beso mas profundo que tu abismo.

No temas, no caigas
en tu rencor de nuevo.
Sacude la palabra mia que vino a herirte
y déjala que vuele por la ventana abierta.
Ella volverá a herirme
sin que tú la dirijas
puesto que fue cargada con un instante duro
y ese instante será desarmado en mi pecho.

Sonriéme radiosa
si mi boca te hiere
no soy un pastor dulce
como en los cuentos de hadas,
sinon un buen leñador que comparto contigo
tierra,viento y espinas de los montes.

Ámame tú, sonríeme,
ayúdame a ser bueno.
No te hieras en mi, que será inútil,
no me hieras a mi porque te hieras.

Pablo Neruda.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

QUAND LE BLANC NOUS EST TOMBÉ DESSUS, pendant la nuit;
quand de la cruche dispensatrice est venu
plus que de l'eau;
quand le genou écorché
a fait signe à la cloche du sacrifice:
Va, vole!-

Alors
j'étais
encore entier.

Paul Celan (Renverse du Souffle)

domingo, 26 de setembro de 2010

42.

Música
Não hà aqui mais que a que faço`
à boca do silêncio.

Enquanto lá muito em cima,
em não sei que esferas,
cantam uns anjos que não ouço
mas fazem retinir as minhas mãos



Pedro Tamen (O Livro do Sapateiro)

sábado, 25 de setembro de 2010

27.


Incham-me os olhos:

não chorei o bastanta
os caminhos barrados,
os dias que vivi por estes dedos
martelados por engano e erro
anos a fio, noites confundidas
com a cave onde trabalha
o coração real



Pedro Tamen (O livro do Sapateiro)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO

12.

Penso no que de parte pus
no que afastei de sobras, desperdícios, peles,
cordas, colas, pregos, pragas
no dedo martelado

e sei agora
(ah, e quanto tempo passou
como a àgua da ponte
que vai a não sei onde!)
que o que de lado pus
era isso mesmo a ponte,
ponte para este concreto,
pobre mas definido,
sapato de quem o queira.

PEDRO TAMEN

sábado, 18 de setembro de 2010

NUBES I

No habrá una sola cosa que no sea
una nube.Lo son las catedrales
de vasta piedra y biblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo és la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. el reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el dia és un dudoso laberinto.

Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incessantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.

Jorge Luis Borges (De los Conjurados)

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

TEMPO

Tempo - definição da angustia.

Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
ao coração pulsátil dum poema!

Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
da tinta co que escrevo.

Fica apenas a tua negra sombra:
- O Passado,
amargura maior fotografada.

Tempo...
e não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
que estrangule a ampulheta de uma vez!
Que realize o crime e a perfeição
de cortar aquele fio movediço
de areia
que nenhum tecelão
é capaz de tecer na sua teia!

Miguel Torga (Cântico do Homem)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

WARNING SIGN

A warning sign,
I missed the part when I realized,
I started looking and the bubble burst
I started looking for excuses.

Come on in,
I've gotta tell you what a state I'm in
I've gotta tell you in my loudest tones,
that I started looking a warning sign.

When the truth is
I miss you
The truth is
That I miss you so

A warning sign,
You came back to hant me and I realized
that you were an island and I passed you by,
You were an island to discover.

And the truth is,
I miss you
And I'm tired
I should not have let you go.

So I would crawl back into your open arms.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

.....
.....
-O que é que se pode perguntar das pessoas com palavras?
O que vale a resposta que uma pessoa dá com palavras e não com a realidade da sua vida?...
Vale pouco.-São poucas as pessoas cujas palavras correspondem por completo à realidade das suas vidas.
Talvez seja esse o fenómeno mais raro na vida.
...
...
Só penso que conhecer a verdade, adquirir experiências, de nada serve, porque ninguém consegue mudar o seu carácter.Talvez não se possa fazer mais nada na vida que adaptar à realidade com inteligência e cautela essa outra realidade inalterável, o caracter pessoal. È a única coisa que podemos fazer. E mesmo assim, não seríamos mais sábios, nem mais protegidos...

Sándor Márai (As Velas Ardem até ao Fim)

domingo, 29 de agosto de 2010

OBSESSION

Picture perfect memories
scattered all around the floor.
Reaching for the phone
because I can't fight it anymore.
And I wonder if I ever cross your mind,
for me it heppens all the time.

It's a quarter after one,
I Im all alone
and I need you now!
Said I wouldn't call,
but I lost all control,
and I need you now!
And I don't know how I can do without
I just need you now!!!

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

PENSAMENTO

Vai sempre longe o pensamento...

Foje, corre
e na corrida quantas vezes cai no abismo.
Quantas outras sobe à lua.
Não pára por um segundo.
Não dá tréguas.
Cansa, agride fere bem fundo,
ou beija afaga e adoça a vida.

Mas volta sempre
e quando volta não nos traz
senão a certeza
que nos deixa
sem sossego, sem pausa, sem paz.

Teresa

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

PALAVRAS

Onde estão as palavras que não chegam?
Espero-as em vão!!!
Levou-as o tempo...
O tempo em que as sabia!

Agora, tal como ele também elas não voltam...


Teresa

terça-feira, 24 de agosto de 2010

ARBRES-Aux-LUEURS

Un mot,
pour lequel j'ai bien voulu te perdre:
le mot
jamais.

Il y avait,
de temps en temps tu le savais aussi,
il y avait
une liberté.
Nous nagions.

Sais-tu encore, que je chantais?
avec l'arbre-aux-lueurs, le gouvernail.
Nous nagions.

Sais-tu encore, que tu nageais?
Ouverte tu étais devant moi,
tu étais, étais
devant moi,
devant l'avancée de mon âme.
Je nageais pour nous deux. Je ne nageais pas.
L'arbre-aux-lueurs nageait.

Nageait-il? Il y avait
une mare autour. Il y avait l'étang sans fin.
Noir et sans fin, suspendu,
suspendu, en aval du monde.

Sais-tu encore, que je chantais?
Cette -
ô cette dérive.

Jamais. Aval du monde. Je ne chantais pas. Ouverte
tu étais devant moi, devant
l'âme en voyage.

Paul Celan (La Rose de Personne)

domingo, 22 de agosto de 2010

CE N'EST PLUS

Cette
pesanteur parfois
plongée dans l'heure
avec toi. C'en est
une outre.

C'est le poids retenant le vide
qui avec
toi irait.
Il n'a, comme toi, pas de nom. Peut-être
êtes-vous la même chose. Peut-être
me donneras-tu aussi un jour ce
nom.

Paul Celan (La Rose de Personne)

sábado, 21 de agosto de 2010

ERRATIQUE

Les soirs se creusent
sous ton oeil. Recueillies
avec la lèvre, des syllabes - beau
cercle en silence -
guident l'étoile qui rampe
vers leur centre. La pierre,
autrefois proche des tempes, ici s'ouvre:

auprès de tous
les soleils
dispersés, âme
tu étais, dans l'éther.

Paul Celan (La Rose de Personne)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

LEMBRANÇAS

Lembranças,
Tesouros guardados na memória.
Gaveta velha
Onde embolorecem os sonhos.

Amarrotadas, amarelas,
Já gastas pelo tempo,
São calor que amolece a alma
No vazio da vida.


Teresa

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

AUSENCIA

Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:

Cada nañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejate
cuantos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el dia.

Tardes que fueron nicho de tu imagen,
musicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo
Yo tendré que quebrarlas con mis manos.

En que hondonada escondré mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?

Tu ausencia me rodea
cono la cuerda a la garganta,
al mar à que se hunde.

J.Luis Borges

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ES VERDAD

Ay qué tabajo me cuesta
quererte como te quiero!
Por tu amor, me duele el aire,
el corazón
y el sombrero.

Quién me compraria a mi
este cintillo que tengo
y esta tristeza que hilo
blanco, para hacer pañuelos?

Ay qué trabajo me cuesta
quererte como te quiero!


Frederico Garcia Lorca

terça-feira, 10 de agosto de 2010

GACELA DEL AMOR MARAVILLOSO

Con todo el yeso
de los malos campos
eras junco de amor, jasmin mojado.

Con sur y llama
de los malos cielos
eras rumor de nieve por mi pecho.

Cielos y campos
anudaban cadenas en mis manos
Campos y cielos
azotaban las llagas de mi cuerpo.


Frederico G. Lorca

domingo, 8 de agosto de 2010

Y DESPUÉS

Los laberintos
que crea el tiempo
se desvanecen.

(Sólo queda
el desierto)

El corazón
fuente del deseo,
se desvanece.

(Sólo queda
el desierto)

La ilusión de la aurora
y los besos
se desvanecen.

(Sólo queda
el desierto)
Un ondulado desierto

Frederico Garcia Lorca

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

ITENERÁRIO DO SILÊNCIO

À espera de um movimento de luz
retorno, sem hesitar, ao itenerário
secreto do silêncio e cultivo a solidão.
Multiplicando as sombras.
Peregrina de outras luas,
resgato a música
que me restou da infancia,
como um sobressalto
ou uma canção de embalar,
ou àgua fresca a ferir-me a boca,
de tanta sede.


Graça Pires

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

PROCURA-SE AMIGO

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madru-
gada, de passaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções de brisa. Deve ter
amor, um grande amor por alguém, ou então sentir a falta de não ter esse amor...
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar
segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja
puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de
perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo.
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado
de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das
recordações de infancia.
Precisa-se de um amigo para não se enloquecer, para contar o que se viu de belo e
triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar
de ruas desertas,de poças de àgua e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato
depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas
porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para
não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos
ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência
de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes
Eu não sou nada
apenas existo.
Sou um ser
.......
.......

Nado nesta fantasia utópica
a que chamam vida...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PORQUÊ

Por que nascemos para amar, se vamos morrer?
Por que morrer, se amamos?
Por que falta sentido
ao sentido de viver, amar, morrer???


Carlos Drummond de Andrade

NÃO PASSOU

Passou?
Minusculas eternidades deglutidas por minimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguem morreu, ninguem foi infeliz.
A mão - a tua mão, nossas mãos -
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estamos sós.
Nada, que eu sinta passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

NÃO SER

Ah! arrancar às carnes laceradas
Seu mísero segredo de consciência!
Ah! poder ser apenas florescência
De astros em puras noites deslumbradas!

Ser nostálgico choupo ao entardecer,
De ramos graves, plácidos, absortos
Na mágica tarefa de viver!

Quem nos deu asas para andar de rastos?
Quem nos deu olhos para vêr os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...

Florbela Espanca

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SENTIMENTAL

Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçados na mesa todos completam

esse romantico trabalho.


Desgraçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar o teu nome!

-Está sonhando? Olha que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências um cartaz amarelo!

"Neste país é proíbido sonhar."


Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 29 de julho de 2010

LONGE

Acendo um cigarro
e ponho-me a olhar
as casas que se elevam pela encosta...

Longe,
o sol morre numa lagoa de sangue...

Entristeço-me.

Meus sonhos, tornaram-se em nada,
minhas ambições nunca passaram de planos,
meus enlevos de amor, nunca passaram de ânsias

quarta-feira, 28 de julho de 2010

AIR VIF

J'ai regardé devant moi
dans la foule je t'ai vue
parmi les blés je t'ai vue
sous un arbre je t'ai vue

Au bout de tous mes voyages
au fond de tous mes tourments
au tournant de tous les rires
sortant de l'eau et du feu

L'été l'hiver je t'ai vue
dans ma maison je t'ai vue
dans mes rêves je t'ai vue

Je ne te quitterai plus...

Paul Éluard (Le phénix)

terça-feira, 27 de julho de 2010

BALANÇO

Pedes-me um tempo
para balanço de vida.
Pedes-me um sonho
para fazer de chão.
Pedes-me o mundo
mas ele não cabe numa mão fechada.

Agarras a minha mão dizendo
que com a tua mão me salvas...

De quê?
de viver o perigo.
De quê?
de rasgar o peito?
Com quê?
De morrer?
Mas de que paixão?

De quê?
Se o que mata mais é não vêr
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir o vento ardente
a soprar o coração.

Teresa

SAUDADE

Saudade é solidão acompanhada
é quando o amor ainda não foi embora
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não vêr o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
Aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos
não ter por quem sentir saudades
passar pela vida e não viver.

O maior sofrimento é nunca ter sofrido!!!

Pablo Neruda

sábado, 24 de julho de 2010

LLÉNATE DE MÍ

Llénate de mí.
Ansíame, agótame, viérteme, sacrificame.
Pídeme. Recógeme, contiéneme, ocúltame.
Quiero ser de alguien, quiero ser tuyo, es tu hora.
Soy el que passó saltando sobre las cosas,
el fugante, el doliente.

Pero sinto tu hora,
la hora de que mi vida gotee sobre tu alma,
la hora de las ternuras que no derramé nunca,
la hora de los silencios que no tienen palabras,
la hora alba de sangre que me nutrió de angustias,
tu hora, medianoche que me fue solitaria.

Libertame de mi. Quiero salir de mi alma.
Yo soy esto que gime, esto que arde, esto que sufre.
Yo soiy esto que ataca, esto que aúla, esto que canta.
No, no quiero ser esto.
Ayúdame a romper estas puertas inmensas.
Com tus ombros de seda desentierra estas anclas.
Así, crucificaron mí dolor una tarde.
Libertame de mí. Quiero salir de mi alma.

Quiero no tener limites y alarme hacia aquel astro.
Mi corazón no debe callar hoy o mañana.
Debe participar de lo que toca,
Debe ser de matales, de raíces, de alas.
No puedo ser de piedra que se alza y que no vuelve,
No puedo ser la sombra que se deshace y pasa.

No, no puede ser, no puede ser, no puede ser.
Entonces gritaria lloraria, gemiria.
No puede ser, no puede ser.
Quien iba a romper esta vibración de mis alas?
Quien iba a extreminarme? Qué designio, qué palabra?
No puede ser, no puede ser, no puede ser.
Libertame de mí. Quiero salir de mi alma

Porque tu eres mi ruta. Te forjé en lucha viva.
De mi pelea oscura conta mí mismo, fuíste.
Tienes de mí ese sello de avidez no saciada.
Desde que yo los miro tus ojos son más tristes.
Vamos juntos. Rompamos este camino juntos.
Será la ruta tuya. Pasa. Déjame irme.
Ansíame, agótame, viérteme, sacrificame.
Haz tambalear los cercos de mis ultimos limites.

Y que yo pueda, al fin, correr en fuga loca,
inundando las tierras como un rio terrible,
desatando estos nudos, ah Dios mio, estos nudos
destrozando,
quemando,
arrasando
como una lava loca, lo que existe,
correr fuera de mí mismo, perdidamente,
libre de mí, furiosamente libre.

Irme
Dios mio
Irme!

Pablo Neruda

sexta-feira, 23 de julho de 2010

SANGRE Y FUEGO

No te quiero sinó porque te quiero
y de quererte a no quererte llego
y de esperarte cuando no te espero
pasa mi corazón del frio al fuego.

Te quiero sólo porque a ti te quiero,
te odio sin fin, y odiándote te ruego,
y la medida de mi amor viagero
es no verte y amarte como un ciego.

Tal vez consumirá la luz de enero,
su rayo cruel, mi corazón entero,
robándome la llave del sosiego.

En esta historia sólo yo me muero
y moriré de amor porque te quiero,
porque te quiero, amor, a sangre y fuego.

Pablo Neruda (Cien Sonetos de Amor)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

SONETO -3-

Aspero amor, violeta coronada de espinas,
matorral entre tantas pasiones erizado,
lanza de los dolores, corola de la cólera,
por qué caminos y como te dirigiste a mi alma?

Por qué precipitaste tu fuego doloroso,
de pronto, entre las hojas frias de mi camino?
Quién te enseñó los pasos que hasta mi te llevaron?
Qué flor, qué piedra, qué humo mostraron mi morada?

Lo cierto es que tembló la noche pavorosa,
el alba llenó todas las copas con su vino
y el sol estableció su presencia celeste,

mientras que el cruel me cercaba sin tregua
hasta que lacerandome con espadas y espinas
abrió en mi corazón un camino quemante.


Pablo Neruda

quarta-feira, 21 de julho de 2010

LE MENHIR

Gris de pierre
qui pousse.

Forme grise, sans
yeux, toi, regard de pierre, avec lequel
la terre a fait saillie vers nous, humaine,
sur l'obscur, le clair, de ces chemins de lande,
le soir, devant
toi, gouffre du ciel.

De l'adultérin, charroyé jusqu'ici, sombrait
par-dessus le dos du coeur. Moulin-
de-mer moulait.

Aile-claire, tu étais suspendue le matin,
entre genêt et pierre,
petite phalène.

Noires, couleur
de phylactères, ansi étiez-vous,
cosses
partageant les prières.

Paul Celan (La Rose de Personne)

terça-feira, 20 de julho de 2010

16.

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que eu digo do que eu faço.

Quem mo deu,
-Partiu!...
Deixou-me na agrura
Interminável e fria
De ter de o guardar
Como único recurso
De poder viver ainda...

Anda um ai na minha vida
Como lágrima que passa,
Que passa,- mas, que finda

Dizê-lo? - nada lucrava.
Guardá-lo?, - morro a senti-lo.

Anda um ai na minha vida
Que me lembra a cada passo
A distância que separa
O que digo do que faço.

António Botto (Dandism0)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

IV


A droite je regarde dans les plus beaux yeux
A gauche entre les ailes aveugles de la peur
A droite à jour avec moi-même
A gauche sans raison aux sources de la vie.

J'écoute tous les mots que j'ai su inspirer
Et qui ne sont plus à personne
Je partage l'amour qui ne me connait pas
Et j'oublie le besoin d'aimer.

Mais je tourne la tête pour reprendre corps
Pour nourrir le souci mortel d'être vivant
Le honte sur un fond de grimaces natales.

Paul Éluard (L'amour la poesie)

sábado, 17 de julho de 2010

AU PREMIER MOT LIMPIDE

Au premier mot limpide au premier rire de ta chair
La route épaisse disparait
Tout recommence

La fleur timide la fleur sans air du ciel nocturne
Des mains voilées de maladresse
Des mais d'enfant

Des yeux levés vers ton visage et c'est le jour sur terre
La première jeunesse close
Le seul plaisir

Foyer de terre foyer d'odeurs et de rosée
Sans âge sans saisons sans liens

L'oublie sans ombre.

Paul Éluard

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sim, sei bem
que nunca serei ninguém

Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.

Sei, enfim,
que nunca saberei de mim.

Sim, mas agora,
este luar, estes ramos,
esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
no que nunca poderei ser.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 14 de julho de 2010

THE STORY

All of these lines across my face
Tell you the story of who I am
So many stories of where I've been
And how I got to where I am

But these stories don't mean anything
When you've got no one to tell them to
It's true, I was made for you

I climbed across the mountaintops
Travel across the ocean blue
I cross over lines and I broke all the rules
And baby I broke them all for you

Oh because even when flat broke
It's hiding the words that don't come out
All of the friends who think that I'm blessed
They don't know I'm in this mess

No they don't know who I really am
And they don't know what I've been through
Like you do, and I was made for you

terça-feira, 13 de julho de 2010

CORAGEM PRECISA-SE!!!

Coragem precisa-se...

Para viver
e curar as feridas.
Para lambê-las
e continuar a existir.

Coragem precisa-se...

Para comprar passagem
e seguir viagem,
Continuando a sorrir.

Coragem precisa-se...

Para amar.
Para não chorar.
Para sofrer
e mesmo assim sobreviver.

Coragem precisa-se...

Para lutar
Querendo ganhar
Mesmo sabendo
Que o mais certo é perder.

Coragem precisa-se...

Para construir.
Para presistir.
Para conquistar.


Coragem precisa-se...!

Preciso, sim!!!

Para parar.
Para pensar.
Para aceitar,
Que não tenho coragem para ser feliz.


Teresa.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

JE NE SUIS PAS SEUL

Chargée
De fruits légers aux lèvres
Parée
De mille fleurs variées
Glorieuse
Dans les bras du soleil
Heureuse
D'un oiseau familier
Ravi
D'une goutte de pluie
Plus belle
Que le ciel du matin
Fidèle

Je parle d'un jardin
Je rêve
Mais j'aime justement

Paul Éluard (Médieuses)

sábado, 10 de julho de 2010

Tudo o que faço ou medito
.Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito
Fazendo, nada é verdade.

Que nojo de mim me fica,
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lucida e rica,
e eu sou um mar de sargaço.


Fernando Pessoa

MÉDIEUSES

41.

Oú est-tu me vois-tu m'entends-tu
Je suis la créature de derrière le rideau
De derrière le premier rideau venu
Maîtresse des verdures malgré tout
Et des plantes de rien
Maîtresse de l'eau maîtresse de l'air
Je domine ma solitude
Oú est-tu
A force de rêver de moi le long des murs
Tu me vois tu m'entends
Et tu voudrais changer mon coeur
M'arracher au sein de mes yeux

Paul Éluard (Médieuses)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

GIORGIO DE CHIRICO

Un mur dénonce un autre mur
Et l'ombre me defend de mon ombre peureuse.
Ô tour de mon amour autour de mon amour,
Tous les murs filaient blanc autour de mon silence.

Toi, que défendais-tu? Ciel insensible et pur
Tremblant tu m'abritais. La lumière en relief
Sur le ciel qui n'est plus le miroir du soleil,
Les étoiles de jour parmi les feuilles verts,

Le souvenir de ceux qui parlaient sans savoir,
Maîtres de ma faiblesse et je suis à leur place
Avec des yeux d'amour et des mains trop fidèles
Pour dépeupler un monde dont je suis absent.

Paul Éluard (Mourir de ne pas mourir)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

LES LIMITES DU MALHEUR

Mes yeux soudain horriblement
Ne voient pas plus loin que moi
Je fais des gestes dans le vide
Je suis comme un aveugle-né
De son unique nuit témoin

La vie soudain horriblement
N'est plus à la mesure du temps
Mon désert contredit l'espace
Désert pourri désert livide
De ma morte que j'envie

J'ai dans mon corps vivant les ruines de l'amour
Ma morte dans sa robe au col taché de sang.

Paul Éluard (Le temps déborde)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Roubo do hoje a força
Fazendo nascer o amanhã.
Da janela, acompanho com o olhar
As nuvens do céu.
De novo a sombra sinistra
Tolda tristemente meus sonhos.

Tua imagem me acompanha
Por todos os lugares por onde ando.
E em todos os momentos
É a tua presença que espanta
As brumas do desconhecido.


Rabindranath Tagore.

domingo, 4 de julho de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO

39.

Quando, ao cair da noite,
zumbe lá fora algo que não conheço,
será talvez o roçagar das nuvens
ou o ar agitado por um aceno
que me chama para longe deste banco.

E de repente choro
tentando não molhar a paz evanescente
que as minhas mãos seguram incompleta
e que um dia, perfeita, falará
ela própria comigo, meu destino.


PEDRO TAMEN.

sábado, 3 de julho de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO

32.s.


Um longo casaco de veludo azul
cobrirá um dia a madrugada que fabrico
dia por dia, mastigando os minutos
nos gestos destas mãos.

E ficará perfeita a vida que sufoco
nesta cave insalubre,
na penumbra habitada.



PEDRO TAMEN.

O LIVRO DO SAPATEIRO

40.

Que faço eu senão amar
o milagre sem paga
a lírica explosão
de um rio que brota neste espaço
de um algo agora acrescentado
ao mudo mundo em que nasci?

Que faço eu que faço
senão olhar o que tenho em frente
e deixar que as lágrimas caiam
dadivosas?

PEDRO TAMEN.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO

26.


Suspendo a mão entre o A e o B,
entre a minha vida e a vida que andará
dentro da minha vida.
E o mundo refloresce
com memórias de rios e montanhas
inundando estes mares de sal e carne
onde me afogo
para respirar


PEDRO TAMEN

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O LIVRO DO SAPATEIRO

23.

E ao fim do meu dia
a matéria de que se faz a minha vida
de novo abandonada
de novo de novo abandonada
pergunta-me silenciosa
se ao apagar da luz
a vida terá principio


PEDRO TAMEN.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pintei um jardim, escondi-me lá dentro,
pintei uma casa, tapei-a com hera,
o fumo pintei sumido no vento,
pintei-me a mim mesmo a dormir sobre a erva.

Pintei as flores da cor do solfejo,
da cor do desejo pintei a mulher
da cor da mulher pintei o que vejo,
a mim mesmo, pintei-me da cor do meu ser.

Pintei o azul da cor dos meus olhos,
pintei os meus olhos cobertos de névoa
A névoa pintei da cor dos meus sonhos,
pintei-me a mim mesmo deitado na terra.

O frio pintei da cor de um menino,
a chuva a cair com um som de piano,
pintei um sorriso de branco de lírio
a mim próprio pintei-me a sonhar de castigo.

Pintei os meus dedos de cor borboleta,
pintei os meus passos de cor solidão,
minha vida pintei com as cores da paleta,
a mim próprio pintei-me estendido no chão.


Jorge Guimarães (1933-2010).

domingo, 27 de junho de 2010

DESEJO INDOMÁVEL

Como corre a gazela
pela sombra dos bosques,
enlouquecida pelo próprio perfume.

Assim corro eu , enlouquecido,
nesta noite de coração de Maio
aquecida pela brisa do Sul.

Perdi o caminho
e erro ao acaso.
Quero o que não tenho
e tenho o que não quero.

A imagem do meu próprio desejo
sai do meu coração
e, dançando diante de mim,
cintila uma e outra vez,
subitamente.

Quero agarrá-la, mas escapa-se.
E, já longe chama-me outra vez
do atalho...

Quero o que não tenho
e tenho o que não quero.


Rabindranath Tagore(O coração da Primavera)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

FÁCIL E DIFÍCIL

"É fácil, trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!

É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!

É fácil sentir o amor,
Difícil é conter a torrente!

Como é por dentro, outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa:
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo"


Fernando Pessoa

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ESCOLHA

Não sei donde sou!!!

Não sou daqui, nem d'além...
Pertenço a um lado e a outro.

Vivo na luz e ao mesmo tempo na obscuridade.
Adoro o ouro, mas vasculho no pó.

Se o espirito caminha para além de tudo,
o corpo queda-se no pouco que resta.
Guardo comigo tudo o que recuso,
transformo em nada tudo o que presta!

Colado em mim, às minhas costas,
fica um resquício de noite,
que sem escolha
não consegue encarar o amanhecer.


Teresa.

CONTEMPLAÇÃO NO BANCO III

Vejo-te nas ervas pisadas.
O Jornal, que aí pousa, mente.

Descubro-te ausente nas esquinas
mais povoadas, e vejo-te incorpóreo,
contudo nítido, sobre o mar oceano.

Chamar-te visão seria
malconhecer as visões
de que é cheio o mundo
e vazio.

Quase posso tocar-te, como às coisas diluculares
que se moldam em nós, e a guarda não captura,
e vingam.

Dissolvendo a cortina de palavras,
tua forma abrange a terra e se desata
à maneira do frio, da chuva, do calor e das lagrimas.

Triste é não ter um verso maior que os literários,
é não compor um verso novo, desorbitado,
para envolver tua efígie lunar, ó quiméra
que sobes do chão batido e da relva pobre.


Carlos Drummond de Andrade (Claro Enigma)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flôr, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este nosso destino: amor sem conta,
distribuido pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a agua implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade (Claro Enigma)

terça-feira, 22 de junho de 2010

OLHOS

Olhos:

Brilhantes da chuva que caiu
quando Deus me mandou beber.

Olhos:

Ouro que a noite me contou nas mãos,
quando colhi urtigas
e fiz arrepender as sombras dos Provérbios

Olhos:

noite, que sobre mim resplandeceu, quando escancarei o portão
e atravessado pelo gelo invernoso das minhas fontes
saltei pelos lugares da eternidade.


Paul Celan (Papoila e memória)

domingo, 20 de junho de 2010

Nesta cidade deserta
alguém escreveu teu nome.

Em toda a parte, essa palavra repetida
transfigura as casas, as ruas, as pontes,
as gentes...

Neste expoente máximo de loucura,
sigo.

Nessa demência amarga e doce
me entrego,
pensando que o amor é uma doença
quando nele julgamos vêr a nossa cura.


Teresa.

sábado, 19 de junho de 2010

LA COMPAGNE DU VANNIER

Je t'aimais. J'aimais ton visage de source raviné par l'orage
et le chiffre de ton domaine enserrant mon baiser. Certains se
confient à une imagination toute ronde. Aller me suffit. J'ai
rapporté du désespoir si petit, mon amour, qu'on a pu
le tresser en osier


René Char ( Fureur et Mistère)
Um esritor é um homem como os outros:

S O N H A



José Saramago (1922-2010)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

FELICIDADE

De repente me deu vontade de um abraço...

Uma vontade de entrelaço, de proximidade...
de amizade, sei lá...

Talvez um aconchego que enfatize a vida
e amenize as dores...

Deu vontade de poder rever saudade
de um abraço.

Só sei que me deu vontade desse abraço...


Vinicios de Moraes

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bruscamente recordas-te de que tens um rosto.

Os traços que formavam o seu relevo não eram todos
traços de desgosto, antigamente.

Em direcçao a essa paisagem multipla erguiam-se
seres dotados de bondade.
Nela, o cansaço não seduzia apenas naufrágios.
Nela respirava a solidão dos amantes.

Olha,
o teu espelho transformou-se em fogo.
Insensívelmente, recuperas a consciência da tua idade
(que saltara do calendário),
desse acréscimo de existência cujos esforços
constituirão uma ponte.

Recua no interior do espelho.
Se não consumires a sua austeridade,
pelo menos a sua fertilidade não se esgotou

René Char

terça-feira, 15 de junho de 2010

COMO TE EXTINGUES em mim...

Ainda no ultimo
e gasto
nó de ar
estás lá com uma
faísca
de vida.


Paul Celan.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

CONSOLAÇÃO

Nas ruas da cidade caminha o meu amor.Pouco
importa onde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já
não se recorda. Quem de facto o amou?

Procura o seu igual no voto dos olhares. O espaço
que percorre é a minha felicidade. Ele desenha a
esperança e o ligeiro despede-a. Ele é
preponderante sem tomar parte em nada.

Vivo no seu abismo como um feliz destroço. Sem
que ele saiba, a minha solidão é o seu tesouro.
No grande meridiano onde inscreve o seu curso é
a minha liberdade que o escava.

Nas ruas da cidade caminha o meu amor. Pouco
importa onde vai no tempo dividido. Já não é
meu amor, todos podem falar-lhe. Ele já não se
recorda. Quem de facto o amou e de longe
ilumina para que não caia?


René Char.

domingo, 13 de junho de 2010

A arte ingreme que pratico escondido no sono
[pratica-se em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. A arte da melancolia e do instinto.

Quando agarro o rosto, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronómica: um rosto
chamejante, multiplo, luxuoso.

Deus olha-o.
E a arte alta do sono fica pesada:
- Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar ardente, obscura, doce]
de uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inexplicável que,
pela doçura enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata
mata.


Herberto Helder
Estende a tua mão contra a minha boca,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a tremula, tocada coluna de ar
o sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo.

Herberto Helder

sexta-feira, 11 de junho de 2010

( Para eu ler, reler, voltar a ler.......e lembrar!! )



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser
que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar
da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si
mesmo, o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade,
de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir
e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo.
Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece tambem
tudo em torno. Ele é a angustia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa
às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e,
encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua desolada
torre.


Vinicios de Moraes

quarta-feira, 9 de junho de 2010

HOJE

Hoje,
Vou deixar-te tristeza...
Não vais mais sufocar-me com o teu peso;
Não roubarás mais o sorriso do meu rosto.

Basta!

De hoje em diante,
seguirei aquela nuvem bem distante,
navegarei no céu tranquilo onde ela anda.

Decidi não mais beber desse teu cálice amargo
tristeza...
Vou aplacar a minha sede
no orvalho fresco da noite,
namorarei as estrelas.
seguirei outro rumo.

Vou poder sentir o perfume dos crisantmos e orquideas,
porque é hora de caminhar entre flores...

Hoje,
Voltarei a ter a paz das crianças,
Inocente e tranquilas.

Hoje,
Vou pedir de volta a alegria perdida
Vou lavar a minha alma confusa
em aguas limpas .
Vou encontrar o meu sentido....

Hoje a felicidade tem um nome!!
E eu hei-de saber dizê-lo.

Teresa.

TAMBORES

Vivo ,
Como se estivesse escutando outra música,
Como se o meu ritmo fosse
o de tambores distantes,
cujo som se propaga numa outra dimensão.

Todos os meus movimentos são deslocados,
minhas acções imprecisas.

Busco continuamente outra realidade
para me fazer reviver de novo.

Apesar disso,
Renascerei das minhas cinzas
no fim de cada dia.

Teresa.

terça-feira, 8 de junho de 2010

STEHEN (Resistir)

Resistir, à sombra
da ferida aberta no ar.

Resistir -por-ninguém-e-por-nada.
Irreconhecido,
por ti,
Somente.

Com tudo o que aí tem lugar,
mesmo sem
linguagem.

Paul Celan.

sábado, 5 de junho de 2010

ABRAÇO

Dá-me um abraço
que seja forte
e me conforte a da canto.
Não digas nada
que o nada é tanto
Dá-me esse pouco.....
que eu não me importo!

Dá-me um abraço
fica por perto
É nesse abraço que eu descanso
É esse espaço que me sossega
Não quero mais
só o silêncio do teu abraço.


Teresa

quinta-feira, 3 de junho de 2010

LOINTAINS

Les yeux dans les yeux, dans la fraicheur,
commençons aussi cela par exemple:

Respirons
ensemble le voile
qui nous cache l'un à l'autre,
quand le soir se dispose a mesurer
tout ce qui sépara encore chacune
de ses propres figures
de chacune de celles
qu'il nous à a tous deux prétées


Paul Celan

quarta-feira, 2 de junho de 2010

DE TANTO OLHAR O SOL

De tanto olhar o sol
queimei os olhos.

De tanto amar a vida enlouqueci.

Agora sou no mundo esta negrura
à procura
da luz e do juízo que perdi



Miguel Torga.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

SENTIDO ERRADO

Tudo o que faço
termina,
como roda
em perfeito descompasso!

Palmilho caminhos
Indecisa!
Num andar quase inútil.
Não dá para chegar mais além.

Desgastada,
vou vagueando no passado
e meio perdida penso:
-Na vida -
segui pelo sentido errado!


Teresa.

domingo, 30 de maio de 2010

SONHO Não sei quem sou.

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
meu pensamento esquece o pensamento,
minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero, nem tenho, nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

NÃO SEI COMO DIZER-TE....

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
explendida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado um campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com os astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
Tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- e então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silencio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que as vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a Primavera inteira aprendo
os trevos, a àgua sobrenatural, o leve e o abstracto
correr do espaço-
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave - qualquer
coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
as crtianças, a àgua, o deus, o leite, a mãe,
o amor
que te procuram.

Herberto Helder

quinta-feira, 27 de maio de 2010

É tão imenso
o perigo de mergulhar na alma.....

Tão assustadora a descoberta
de sentimentos nela adormecidos.....

Tão desconcertante saber que sou:

-Vulnerável
-Fraca
-Insana (às vezes)
-Impotente perante a adversidade (tantas vezes)

Que me recuso a mergulhar mais nesse mar!!!!.

Teresa

quarta-feira, 26 de maio de 2010

VIAGEM

Aparelhei o barco da ilusão
e reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho e traiçoeiro,
o mar.....

(só nos é concedida
esta vida
que temos;
e é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos)

Prestes larguei a vela
e disse adeus ao cais, à paz tolhida
Desmedida,
a revolta imensidão
transforma o dia a dia, a embarcação
numa errante e alada sepultura....

Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
o que importa é partir, não é chegar

Miguel Torga.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A PRISÃO DO ORGULHO

Choro metido na masmorra
do meu nome.

Dia após dia,levanto,sem descanso
este muro à minha volta;
e à medida que se ergue no céu,
esconde-se em negra sombra
o meu ser verdadeiro.

Este belo muro
é o meu orgulho,
que eu retoco com cal e areia
para evitar a mais leve fenda.

E com este cuidado todo,
perco de vista
o meu ser verdadeiro.


Rabindranath Tagore (O Coração da Primavera)

TACTEIO EM VÃO A CLARIDADE

Cego, tacteio em vão a claridade;
Louco, cuspo no rosto da razão;
E deambulo assim
Dentro de mim
negação a negar a negação

domingo, 23 de maio de 2010

AMOR É BICHO INSTRUÍDO

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
O amor subiu na arvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que corre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã


Carlos D. Andrade.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

SILENCIO

É sempre tanto o que fica por dizer...
Calo, guardo.

Na boca, aprisionadas,
ficam as ideias, os sentimentos.

Na alma a consumir-me
fica o fogo do silêncio.


Teresa.
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
Ao principio não te vi: não soube
que ias comigo;
até que as tuas raízes
atravessaram meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo


Pablo Neruda.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

DIME

Dime por favor donde no estás
en qué lugar puedo no ser tu ausencia
donde puedo vivir sin recordarte
y donde recordar, sin que me duéla.

Dime por favor en que vacio,
no está tu sombra llenando los centros;
donde mi soledad es ella misma,
y no el sentir que tú te encuentras legos.

Dime por favor por qué camino,
podré yo caminar, sin ser tú huella;
donde podré correr no por buscarte,
y donde descanzar de mi tristeza.

Dime por favor cuál es la noche,
que no tiene el color de tu mirada;
cuál es el sol, que tiene luz tan solo,
y no la sensacion de que me llamas!

Dime por favor donde hay un mar,
que no sussurre a mis oídos tus palavras.

Dime por favor en qué rincón,
nadie podrá ver mi tristeza;
dime cuál es el hueco de mi almohada,
que no tiene apoyada tu cabeza.

Dime por favor cuál es la noche,
en que vendrás para velar tu sueño;
que no puedo vivir, porque te extraño;
y que no puedo morir, porque te quiero.

Jorge Luis Borges

sábado, 15 de maio de 2010

RETRATO

O meu perfil é duro como o perfil do mundo
Quem adivinha nele a graça da poesia?
Pedra talhada a pico e sofrimento,
é um muro hostil à volta do pomar.

Lá dentro hà frutos, há frescura hà quanto
faz um poema doce e desejado:
Mas quem passa na rua
nem sequer sonha que do outro lado
a paisagem da vida continua.


Miguel Torga

quinta-feira, 13 de maio de 2010

SOY

Soy el que sabe que no es menos vano
que el vano observador que en el espejo
de silencio y cristal sigue el reflejo
o el cuerpo (da lo mismo) del hermano.

Soy, tácitos amigos, el que sabe
que no hay otra venganza que el olvido
ni otro perdón. Un dios ha concedido
al odio humano esta curiosa llave.

Soy el que pese a tan ilustres modos
de errar, no ha descifrado el laberinto
singular y plural, arduo y distinto,

del tiempo, que es uno y es de todos.

Soy el que es nadie, el que no fue una espada
en la guerra. Soy eco, olvido, nada.

Jorge L. Borges.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Le mur de la fenêtre saigne
La nuit ne quitte plus ma chambre
Mes yeux pourraient voir dans le noir
S'ils ne se heurtaient à des ruines

Le seul espace libre est au fond de mon coeur
Est-ce l'espace intime de la mort
ou celui de ma fuite

Une aile retirée blessée l'a parcouru
Par ma faiblesse tout entier il est cerné
Durerai-je prendrai-je l'aube
Je n'ai a perdre qu'un seul jour
Pour ne plus même voir la nuit

La nuit ne s'ouvre que sur moi
Je suis le rivage et la clé
De la vie incertaine.

Paul Éluard (Le Livre Ouvert,I)

segunda-feira, 10 de maio de 2010

DERNIERS INSTANTS

Bois meurtri bois perdu d'un voyage en hiver
Navire où la neige prend pied
Bois d'asile bois mort où sans espoir je rêve
De la mer aux miroirs crevés

Un grand moment d'eau froide a saisi les noyés
La foule de mon corps en souffre
Je m'affaiblis je me disperse
J'avoue ma vie j'avoue ma mort j'avoue autri.

Paul Éluard (Poésie et Vérité)

domingo, 9 de maio de 2010

HOJE

Hoje, meu coração está apertado.
Não vôo, mal sinto as asas.
Onde ficaram minhas firmes decisões?
Onde está meu uniforme de combate
e a minha força de vencer?

Hoje, meu coração está apertado.
Não danço, mal posso sentir meus pés.
Onde está a felicidade e o sorriso que ela trás?
Onde estão meus vestidos? minhas sapatilhas?
Meu ballet? A minha festa?

Hoje, meu coração está apertado.
Sem rima, sem espaço
Sem destino, entregue ao cansaço
que as feridas deixaram quando lá dentro se alojaram.

Teresa.

sábado, 8 de maio de 2010

RÉEL

Pensée d'aurore opium très fin
Feuillage errant avoine folle
Battue par la brise solaire

Corps décoiffé déshabillé
Dispersé sans inquiétude
Démesuré mais sans orgueil
Brillant d'oubli.

Paul Éluard (Cours Naturel)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

NUDITÉ DE LA VERITÉ

Le désespoir n'a pas d'ailes,
L'amour non plus,
Pas de visage,
Ne parle pas,
Je ne bouge pas,
Je ne les regarde pas,
Je ne leur parle pas

Mais je suis bien aussi vivant que mon amour et que
mon désespoir


Paul Éluard [Mourir de ne pas mourir]
Harmonioso vulto que em mim se dilui

Tu és poema
e és a origem donde ele flui

Intuito de ter. Intuito de amor
não comprendido.

Fica assim amor. Fica assim intuito
Prometido.


Natália Correia ( O livro dos amantes)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

SETE LUAS

Hà noites que são feitas dos meus braços
e um silêncio comum às violetas
e hà sete luas que são sete traços
de sete noites que nunca foram feitas.

Hà noites que levamos à cintura
como um cinto de grandes borboletas
e um risco a sangue na nossa carne escura
duma espada a baínha de um cometa.

Hà noites que nos deixam para trás
enrolados no nosso desecanto
e cisnes brancos que só são iguais
à mais longinqua onda de seu canto

Hà noites que nos levam para onde
o fantasma de nós fica mais perto:
e é sempre a nossa voz que nos responde
e só o nosso nome estava certo

Natália Correia

terça-feira, 4 de maio de 2010

em meus braços,AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante a falta.


Hoje não a lastimo.

Não hà falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada em meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 2 de maio de 2010

Às vezes em dias de luz perfeita e exacta,
em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
pergunto a mim mesmo devagar
porque sequer atribuo eu
Beleza às coisas?

Uma flôr acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: Têm cor e forma
e existência apenas.

A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe.
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então porque digo eu das coisas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
perante as coisas,
perante as coisas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ser senão o visível!

Alberto Caeiro.

NÃO, NÃO É CANSAÇO

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
que se me entranha na espécie de pensar.

É um domingo às avessas
do sentimento,
um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...

É eu estar existindo
e também o mundo,
com tudo aquilo que contém,
com tudo o que nele se desdobra
e afinal é a mesma coisa variada em cópias.

Alvaro de Campos.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

INÚTIL

Chega a noite!
Caminhante longa e vagarosa
que se arrasta e me vai arrastando com ela.
Com a noite chega o medo.

Perco-me em pensamentos nesse imenso deserto
que são as horas escuras.

Vou esperando agoniada o Sol
almejando que ao chegar a nova noite
não volte a dizer:
Nada fiz,nada dei,nada fui, nada me foi pedido...


Teresa .

quarta-feira, 28 de abril de 2010

DES NUAGES DANS LES MAINS

Ce désespoir confus
Source impalpable nuit de pluie
Loin des feuilles naissantes
Loin des larmes salubres
Ce dédain de l'orient
Ce paradis livide
Cette marche en arrière
Incrédule exténuée
Vers quelques souvenirs

Le remède miracle accord cadeau confiance.

Paul Éluard (Les mains libres)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficámos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas arvores dos dedos
e ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo

Natália Correia

domingo, 25 de abril de 2010

O APAIXONADO

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traço de Dúrer. lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero.

Devo fingir que existem coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.

Devo fingir os arcos e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.

Devo fingir que há outros. É mentira.
Só tu existes. Minha desventura,
minha ventura, inesgotável, pura.

J.Luis Borges.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

DEVE CHAMAR-SE TRISTEZA

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a ter.

Seja o que fôr é o que tenho
Tudo mais é tudo só
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó


Fernando Pessoa.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

JE TE VEUX

J'ai compris ta détresse
Cher amoureux
Et je cede à tes voeux
Fais de moi ta maîtresse
Loin de nous la sagesse
Plus de tristesse
J'aspire à l'instant précieux
Ou nous serons heureux
Je Te Veux.

Je n'ai pas de regrets
Et je n'ai qu'une envie
Prés de toi lá tout près
Vivre toute ma vie
Que mon corps soi le tien
Que ta lèvre soi la mienne
Que ton coeur soi le mien
Et que toute ma chair soit tienne.

Oui je vois dans tes yeux
La divine promesse
Que ton coeur amourex
Vien chercher ma caresse
Enlacés pour toujours
Brûlant des mèmes flames
Dans un rêve d'amour
Nous échangerons nos deux ámes


Erik Satie.

BEAU SOIR

Lorsque au soleil couchant les rivières sont roses

Et qu'un tiede frisson court sur les champs de blé,
Un conseil d'être heureux semble sortir des choses
et monter vers le coeur troublé.


Un conseil de goûter le charme d'être au monde
Cependant qu'on est jeune et que le soir est beau,
Car nous nous en allons, comme s'en va cette onde:

Elle à la mer, nous au tombeau


Paul Bourget.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O POÇO

Aqui eu te amo.
Nos escuros pinheiros se desenlaça o vento.
Fosforece a lua sobre as aguas errantes.
Andam dias iguais a perseguir-me.
Descinge-se a nevoa em dançantes figuras.
Uma gaivota de prata se desprende do ocaso.
Às vezes uma vela, altas altas, estrelas.
Ou a cruz negra de um barco
Só.
Às vezes amanheço e minha alma está humida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui eu te amo.
Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.
Já me creio esquecido como estas velhas âncoras.
São mais tristes os portos ao atracar da tarde.
Cansa-se minha vida inutilmente faminta...
Eu amo o que não tenho. E tu estás tão distante.
Meu tédio mede forças com os lentos crepusculos.
Mas a noite enche e começa a cantar-me.
A lua faz girar sua arruela de sonho.
Olham-me com teus olhos as estrelas maiores .
E como eu te amo, os pinheiros no vento
Querem cantar o teu nome, com as suas folhas de cobre.

Neruda.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

LOUCURA

Este é o tempo
que não passa!!!


(Ou passa depressa demais ?)

Uma coisa sei;
Ontem fui branca, hoje sou preta.

(Ou serei de todas as cores?)

Sinto-me Outubro, Novembro ou Dezembro,
mas o que sou mesmo é todo o ano esperando Janeiro!

Não tenho já mais unhas para roer
Nem mais cigarros para fumar,
mas e daí? Qual é o mal?

Tenho a certeza que a espera é pouca,
mais um passinho e ficarei louca!!!!

Teresa.